Existem muitos
meios alternativos de se mediar um conflito. Após a resolução 125/2010 do CNJ,
corroborado com as novas práticas inseridas no Código de processo Civil de
2015, muitos operadores do direito estão redescobrindo muitas formas de
pacificar conflitos e apaziguar famílias.
Muitos advogados
ainda, querem fazer justiça com as próprias mãos, assumem o papel de guerreiros
dentro do processo, isso ainda são respingos das faculdades de direito, das
crenças limitantes, da busca pela concorrência desleal, que ensinavam o
advogado ser combatente, numa busca incessante pelo GANHA x PERDE.
Atualmente no
judiciário temos uma carga elevada de processos aguardando decisões, mandados
empilhados, pareceres, e com toda certeza o mundo dos fatos se organiza de uma
forma enquanto que nos autos vivencia-se um mundo à parte, deixando os cidadãos
vulneráveis e sem qualquer perspectiva de resolução imediata.
São mães que aguardam em média dois anos para
receber uma pensão de alimentos, como se as responsabilidades pelos cuidados do
filho não fossem do pai também. Herdeiros que litigam por anos, até poder
desfrutar de uma quota parte de um patrimônio que ao final poderá estar
deteriorado. Ou talvez, hipossuficientes que postulam medicamentos quando a
doença já se transformou, ou até mesmo, o paciente faleceu e ainda, estamos
assistindo o conflito de competência nos autos entre os entes da federação,
discutindo de quem é a responsabilidade.
Conflitos que
ganham força, partes que não tem mais qualquer tipo de comunicação, sentem-se
estranhos, profissionais saturados que exploram seus clientes para ganhar
honorários a qualquer custo, juízes apinhados de conflitos que buscam bater
metas, conquistas méritos, alcançar novos voos, e assim, as partes viram
números.
Nesse momento,
vejo a mediação sistêmica como uma maravilhosa oportunidade para ouvir o
cliente, de sentir o rico momento de ver um filho que não fala com o pai há
anos, trocando olhares molhados; um conflito entre vizinhos sendo resolvido com
a comunicação não-violenta, um aperto de mão, possibilidades de falas que até
então não foram observadas, sendo uma grande oportunidade de se conectar com
seres humanos.
Por meio das
práticas sistêmicas o conflito é observado através de uma perspectiva mais
humana, sentindo o que existe de forma oculta entre as partes. Muitas vezes o
conflito em si é tão pequeno diante das profundezes de dores emaranhadas entre
os litigantes. Será que aquele pedido de separação traz consigo somente o que
foi vivido entre quatro paredes? Uma mãe que proíbe um pai de ver o filho é
somente uma forma de cobrança? O acordo trabalhista que não foi cumprimento é
somente falta de dinheiro na empresa? O que levou a mulher sofrer violência
doméstica? Essas são perguntas que todos os profissionais devem fazer para que
possamos enxergar o que existe dentro de cada ser humano que naquele momento
busca as portas do Poder Judiciário como única alternativa para resolver o seu
problema e poder dormir tranquilo novamente.
Depois que me
tornei advogada sistêmica nunca mais peguei o problema do cliente. Sei que o
problema é dele, mas ajudo apresentando novas alternativas, um olhar amplo para
o conflito, resolvendo muito mais do que uma questão jurídica, mas uma questão
que envolve almas.
Reviver memórias,
sentir o coração bater mais forte, o suor percorrer no corpo, são
características biológicas que a parte sente antes de entrar em uma sala de
audiência. O papel do mediador e do advogado e tornar esse momento mais tranquilo
e acolhedor. A fala de uma mãe que está em processo de separação tem muita
mágoa, dor, vergonha, frustrações de uma ilusão de contos de fadas não vivida e
que merece ser dissolvida para que possamos resolver o conflito por inteiro,
evitando o seu retorno para execução do acordo proposto.
Porque estão separando? Qual a dor que cada um
carrega? Lealdades familiares, projeções, carências, dúvidas, ciúmes, etc. O
que fez aquele casal sonhar com uma vida juntos e logo depois de alguns meses,
com um rebento no colo exaltar um olhar de ódio que arrepia, como se as
estruturas e os pilares nunca haviam sido construídos.
Portanto, o
direito sistêmico nasce do direito natural, se torna muito útil para aclarar o
que falta, como uma lanterna projetada em um bosque escuro. Incluir o que está
excluído, separar o que está misturado, colocar em ordem, restabelecer o
equilíbrio entre o dar e tomar, aliviar as tensões, os medos, buscando decisões
inteligentes, conscientes, transformadoras.
Falar ao casal
para repetir a frase: sinto muito, por favor me olhe com carinho, você é eu, eu
sou você, foi muito bom, eu reconheço os meus 50% da relação, restabelece o
equilíbrio e a paz. As uniões de habilidades do profissional que se abre para
esse olhar, como o direito sistêmico, a PNL, a comunicação não-violenta, a
mediação, a inteligência emocional, torna um profissional especial e singular.
Eu estou a serviço
da pacificação social e quanto mais poder contribuir para a reconexão do casal
mais iluminada será minha trajetória. Estar conectada com a verdadeira
advocacia, aquela que eu sempre vislumbrei para meus clientes, me torna uma
verdadeira profissional. Tenho fé na liberdade, sem a qual não há direito, nem
justiça, nem paz.
Juliane
Silvestri Beltrame
Especialista
sistêmica em direito das famílias