Vamos analisar as visitas
do ponto de vista paterno. Por muito tempo os cuidados diários com a educação,
roupa limpa, dar banho, fazer as tarefas, dar de comer eram atribuídos à mãe e
ao pai cabia prover a necessidade financeira dos filhos. Aqui nesse período a
mulher não estava laborando fora e ficava cuidando do lar e dos filhos.
Felizmente ou
infelizmente tal situação mudou. Agora ambos laboram fora e as necessidades
materiais, físicas, emocionais dos filhos em tese, deveriam ser compartilhadas.
Afinal, ambos têm responsabilidade pelos filhos.
O ponto principal das
queixas das mães além do não pagamento da pensão corretamente, são as visitas e
o acompanhamento da prole.
O ato de visitar parece
não ser importante, pior ainda, quando os pais projetam nos filhos a raiva da
mãe pela separação. Percebo diariamente este ciclo onde nos casos em que a
separação não foi devidamente elaborada, há mágoas não superadas, e alguns
homens se valem do que entendem de pretextos para se vingar da esposa,
projetando raiva, ódio, nos filhos, ausência nos dias combinados para visitar a
criança, atrasos desmotivados para retirada dos filhos, retorno antes do
horário previsto, indisponibilidade para ter os filhos em feriados ou férias,
impossibilidade de estar presente no dia do aniversário e datas comemorativas.
Por outro lado, esse
descaso torna excessiva a carga em cima das mães que carregam sozinhas a
responsabilidade de cuidar materialmente, psicologicamente e afetivamente os
filhos, inclusive são julgadas pelo Poder Judiciário como abnegada, dedicada
integralmente aos filhos, disponível o tempo todo, sem necessidades próprias de
crescimento enquanto pessoa comum, sendo a maternidade o aspecto fundamental da
vida da mulher.
Mãe não pode agir como
pai. Mãe não pode sonhar com uma promoção no emprego. Mãe não pode ganhar um
salário bom; Mãe não pode se projetar profissionalmente. Mãe não pode fazer
curso no período noturno. Mãe não pode se ausentar para viajar 02 dias, tudo porque
a sociedade e, inclusive o Poder Judiciário, vê a mãe como sendo somente mãe.
Se essa mulher, mãe,
decidisse deixar os filhos com o pai e buscar uma melhor oportunidade de
trabalho em uma cidade ou país distante, seria massacrada, como uma pessoa fria
e sem amor pelos filhos.
Basta que deixe os filhos
aos cuidados de uma terceira pessoa, que os filhos não se comportem bem, ou até
cheguem a ser mal-educados – já que o pai não se dispõe a estar com eles fora
de seus dias de visitas – para que os mais próximos questionem sua atitude:
“Nossa, vai sair à noite e deixar as crianças com a vizinha? ”, “Puxa, mas você
consegue relaxar longe das crianças? ” Nossa, mas essas crianças estão
mal-educadas? e tantos outros julgamentos que todos fazem, inclusive outras
mães.
Agora, pergunta se alguém
questiona um pai ausente, pouco participativo na vida dos filhos, que não vai
na escola, que não participa da catequese, que não leva os filhos na igreja,
que não convive diariamente. Parece ser natural que ele faça o que quiser, a
hora que quiser, como se não tivesse responsabilidades inerentes à paternidade.
Basta pagar pensão e
trazer alimentos, isso supre um filho. O pai aqui tem as visitas como um
direito, assim como nenhuma penalização pode sofrer por não as cumprir. Cabe à
mãe explicar aos filhos que “O papai é muito ocupado”, “Não pode vir essa
semana porque estava trabalhando”, mesmo quando as redes sociais mostram o contrário.
O pai está atrasado, deve estar resolvendo algo importante, e outras desculpas
que a mãe fala para os filhos e que no fundo sabe não ser verdade.
Ai de uma mãe que fale a
verdade aos filhos! Alienadora!! Quer aniquilar a imagem paterna aos pequenos.
As visitas devem
ser vistas como um dever paterno e não só como um direito. A imposição de algum
tipo de sanção não criará amor, mas fortalecerá vínculos que ficam apenas a
cargo da mãe.
Essa semana ouvi de um
pai que disse: “Para mim a mãe e a filha
morreram, não existem mais” que frase que dói de ouvir, de um pai
totalmente fora de seu centro de força que projeta no filho a dor da separação.
É inaceitável tal
postura. Essa visão precisa ser modificada, sob pena de termos crianças
emocionalmente abandonadas e mães exauridas com os cuidados com os filhos,
filhos esses que possuem pais vivos, exercendo seu “direito” quando lhes
convém.
Importante salientar, que
o instituto da guarda compartilhada – modalidade aplicada atualmente, sendo
regra desde 2014, veio com o propósito de equilibrar as demandas, de permitir a
ambos os genitores a participação na vida dos filhos. Para que isso ocorra, não
basta o pai postar nas redes sociais lindas fotos no final de semana. O dia a
dia das crianças deve ser compartilhado e as visitas paternas, ou a
convivência, deve ser constante e benéfica, tornando-se a presença do pai
natural e propiciadora de bons momentos, como era antes da separação do casal.
Todos os dias, vemos
notícias de filhos abandonados pelos pais, dores emocionais profundas que vão
desiquilibrando todo um sistema familiar e apodrecendo a sociedade que chora
depois pelas consequências desastrosas, chegando nos pontos culminantes de
roubos, furtos, estupros, assassinatos, drogatização, alcoolismo exacerbado e outras
consequências perniciosas.
A culpa nunca é da
criança. São os pais que precisam honrar sua prole, sua masculinidade, sua
força do guerreiro. Pais meninos, meninos já pais, que assolam a sociedade
diariamente, deixando um lastro de dor, lágrimas e muito sofrimento.
Juliane Silvestri Beltrame
Especialista em Direito das Famílias.
Pós-graduada em Relações humanas, inteligência emocional
e comunicação não-violenta.