Toda
criança necessita de interação para se desenvolver fisicamente e mentalmente.
Conversar com a criança, conectar-se afetivamente com ela por meio da
gestualidade corporal, carinho, atenção e o brincar com ela são fatores
fundamentais para o desenvolvimento de habilidades psíquicas, cognitivas e
sociais.
Conforme
o escritor Gary Chapman, no livro: As cinco linguagens do amor, ele descreve
que as crianças precisam ter o seu tanque cheio de amor, para se desenvolver bem
e não buscar compensar com terceiros. Nas palavras dele: “Quando a criança se sente amada, ela se desenvolve normalmente, mas
quando o tanque está vazio, ela se comporta mal”.
Exigimos
que as crianças se comportem, que façam seus deveres, que leiam livros, mas
qual é o nosso comportamento diante delas? Você leitor, como se comporta diante
de seu filho?
Além
da proteção atinente ao núcleo familiar exposto acima, há uma especial proteção
para com os menores previstos na nossa legislação. Os direitos dos menores são
positivados pela Constituição Federal, pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente e pela Declaração dos Direitos das Crianças, da qual o Brasil é
país signatário. Os direitos positivados nestes textos, além de uma proteção
aos direitos das crianças, preconizam também o seu bem-estar, sendo assim, as
questões atinentes aos menores, como, por exemplo, guarda e adoção, deverão
sempre atender ao melhor interesse destes.
As
tecnologias de informação e comunicação também proporcionaram alterações nos
modelos de família e em seu modo de convivência, são alterações perceptíveis
nas relações familiares e nos componentes do núcleo familiar. Quem aí não tem
um celular? Quem aí almoça com um olho na comida e o outro na tela?
Desde
a década de 1990, o acesso à internet vem sendo ampliado, podendo ocorrer,
atualmente, de diversas plataformas e de diversas localidades. Com o advento do
smartphone não há mais necessidade de ficar em apenas um lugar para se conectar
à rede, podendo estar conectado a qualquer horário e de qualquer local,
trazendo benefícios como: interação social, pesquisa, troca de experiências,
compras on line, mas também, diversos
malefícios como: contato com criminosos, uso indevido das redes, vicio ao
acesso não regrado, crimes cibernéticos e outros tantos problemas que ouvimos
diariamente as pessoas comentarem.
A
parentalidade distraída consiste no desvio da atenção dos pais em relação aos
filhos por conta do uso excessivo da tecnologia. Aqui, quem faz o uso excessivo
são os pais. Esse fenômeno resulta em um empobrecimento de vínculo
anteriormente criado pelos entes que compõem o núcleo familiar e por conta
desse fator há uma menor interação física, psicológica e emocional de pais e
filhos, bem como uma diminuição na troca de afeto e diálogo. Todas essas
consequências já estão sendo sentidas por professores nas salas de aula, pais
dentro e fora do lar, comunidade em um geral.
Por
mais que a parentalidade distraída esteja explicitamente presente, é pouco
ponderada entre as rodas de conversas ou debates de pais, familiares e escolas.
É um verdadeiro mal oculto e o que mais ocorre
é o apontar de dedos e não de assumir culpas. Na realidade estamos todos
viciados nas redes sociais e quem está sentindo o peso dessa irresponsabilidade
é a geração do futuro, que está sentindo a desproteção, a falta de prioridade,
a dificuldade de estar presente, a falta de concentração, a irritação, a
desmotivação no brincar, procurando se saciar de forma rápida com o estimulo do
uso do celular que aumenta a dopamina que gera dependência porque estimula o
sistema de recompensa (hormônio do prazer) no cérebro. O psicólogo Espanhol
Marc Masip, diz: “O celular é a heroína
do século 21”. O que torna algo viciante? Aquilo que dispara dopamina no
sistema de recompensa do cérebro de forma rápida e isso o celular sabe fazer
perfeitamente.
A
parentalidade distraída ocorre quando uma mãe ou um pai está presente de forma
física com seus filhos, mas, tem sua atenção voltada a um dispositivo
eletrônico, como, por exemplo, celulares e televisão. Nestes casos, a atenção é
dividida, trazendo à tona conversas e ações automáticas, fazendo com que pais e
cuidadores não estejam presente para os filhos. A parentalidade distraída
caracteriza-se por uma desatenção crônica, a qual foi cunhada de forma
assertiva pela pesquisadora de psicofisiológia Linda Stone no ano de 1998, a
qual intitula a parentalidade distraída de partial
attention.
A
parentalidade distraída ocasionada pela utilização de redes sociais pode
facilmente ser considerada como uma das formas de abandono afetivo, o qual se
traduz na falta de afeto, ferindo o princípio da afetividade já consagrado pela
jurisdição brasileira. Muitos psiquiatras já apontam como a doença do século
XXI.
Cabe
a nós pais termos a responsabilidade de nos controlar no uso dos celulares e
redes sociais e realizar a troca e conexão com as crianças de forma presente e
efetiva.
A
presença no seio familiar é a chave para a liberdade. Portanto, temos a
responsabilidade e o poder da hierarquia dentro do lar para fazer cumprir as
regras, mas antes precisamos nos autorresponsabilizar pelas nossas ações
diárias, e saber que o exemplo arrasta e deve partir das nossas atitudes.
O
desconforto, a ansiedade, a irritabilidade, a tensão, as birras, o estresse
infantil está sendo ocasionado pelo excesso da tela nas crianças, mas por outro
lado, a falta de conexão, presença e atenção dos pais também é índice alto que
colabora para a improdutividade no desenvolvimento das crianças.
Pergunto
para você leitor: Qual o futuro que queremos para nossas crianças? Você olha
seu filho? Está se conectando com ele? A maioria das nossas interações são
entre mentes e não entre máquinas. Nenhuma relação pode florescer por esse
caminho, e essa é a razão de tantos conflitos nos lares. Pais brigando com
filhos, mães desconectadas, professores que disputam com o celular para prender
a atenção do aluno, no momento do aprendizado.
Lembre-se:
o amor é um estado do ser, não está presente lá fora. Para que o amor no lar
floresça, a luz da nossa presença como pais tem que ser forte o bastante, de
modo a impedir que terceiros adentre no lar para substituir a felicidade que
não estamos fornecendo aos nossos filhos.
Essa
é uma guerra declarada. Quem você quer que vence. O celular, a tecnologia ou o
teu amor de pai e mãe?
Juliane Silvestri Beltrame
Especialista em Direito das Famílias