O que a música “Mulher do fim do mundo” de Elza Soares, composta por Alice Coutinho e Romulo Fróes e a nova música de Maiara e Maraisa – Narcisista, composta por Maraisa e Lari Ferreira, tem em comum?

Ambas as letras entoam o drama das mulheres que sofrem as diversas facetas da violência intrafamiliar, e que, no ano passado, atingiu 35 mulheres por minuto no país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Datafolha, divulgados em março desse ano.

A mulher ainda é vítima das diversas formas de violência, apesar de inúmeras leis sendo aprovadas anualmente, inclusive nesse ano a Lei 14.542/2023, que garante a prioridade às mulheres vítimas de violência domésticas e familiar nas vagas intermediadas pelo Sistema Nacional de emprego – SINE, sendo que a patrimonial e a psicológica continuam sendo as mais veladas e que mais fazem vítimas por todo o mundo, gerando graves consequências nos filhos dentro do lar.

Ainda existem padrões culturais machistas seculares permeando as nossas relações sociais e naturalizando e justificando condutas que não são admitidas pelo direito, tornando a discriminação de gênero – e da violência, sua face mais perversa, constituindo um grave problema social e político que assola principalmente, as crianças e os adolescentes.

A lei Maria da Penha que prevê o enfrentamento em três eixos: proteção e assistência; prevenção e educação e combate e responsabilização, ainda tem muito chão para percorrer, pois necessita de uma rede pública de apoio, devendo deixar de ser interpretada como um problema individual e sim, social. Assim, não basta uma legislação forte, devemos ter avanços firmes para combater uma violência milenar não só de discriminação como de sujeição da mulher.

Atingir a equidade de gênero, a responsabilização do agressor, a prevenção desde a idade escolar na educação da base familiar, o acesso as redes de apoio, os serviços da justiça, a informação das medidas protetivas e uma cura urgente da psique da mulher, fazendo não só a mulher buscar o autoconhecimento mas, compreender o que a vincula ao agressor, são caminhos que podem ajudar a minimizar os índices altos de violência registrados nos últimos anos.

A violência contra mulher está enraizada desde a formação da estrutura social, isto porque nos foi imposta uma forma de comportamento, religião advindas do direito canônico, que sempre colocou o homem na condição de privilégio e poder. Assim, a mulher sempre ocupou um papel secundário, doméstico, sem qualquer espaço público.

O discurso de que homens e mulheres ocupam espaços diferentes, reflete no adulto de amanhã. Assim, as crianças precisam entender a importância de uma sociedade justa e igualitária, independentemente de gênero. A violência atravessa os grupos sociais mais vulneráveis e a família que deveria ser o esteio e acolhimento se torna a propulsora da violência futura, gerando danos que vão desde o isolamento e o retraimento social, como: dificuldade em estabelecer vínculos afetivos, agressividade, doenças autoimunes, quadros alérgicos, distúrbios de sono, chegando até aos massacres escolares.

Diante disso, é urgente a necessidade de descontruir mitos e estereótipos que ainda permeiam a nossa sociedade. O direito das famílias e o profissional contemporâneo, devem estar atentos para quebrar paradigmas, para adentrar no universo da psique humana, nas terapias, nos tratamentos psicológicos, na psicanálise, sendo indispensável a interdiciplinariedade do profissional para poder entregar muito mais do que as normas escritas e sim, compreender o ser humano nas suas mazelas, fazendo cura, desdobrando outros saberes que podem contribuir sem julgamentos para o futuro da família.

Todos nós somos responsáveis. Se uma mulher sofre violência, toda uma coletividade está inserida nesse sistema.

JULIANE SILVESTRI BELTRAME

Especialista em Direito das Famílias e escritora.