Você
já deve ter ouvido a frase: nasce o filho nasce uma mãe. Me desculpe se hoje
vou distorcer essa máxima, mas sinto que mentiram para nós mulheres.
Não
há como escapar. Uma mulher precisa receber toda atenção materna, desde a
concepção, para dar atenção a sua própria prole.
Veja
que embora a mulher tenha um vínculo físico e espiritual inalienável com seus
rebentos, ela simplesmente não se transforma em uma boa mãe nos primeiros
minutos após o nascimento.
Não,
mentiram para nós.
Toda
mulher que gera uma nova vida, precisa receber muitas bênçãos, auxílio,
estímulo, palavras, empatia das mulheres mais experientes, acolhimento da
equipe médica no momento do parto, porque toda nova mãe é uma mãe-criança
sedenta de carinho afeto e compreensão.
Durante
séculos vemos o papel das madrinhas, que foram certificadas com o papel
religioso, para assegurar que a criança não se afastaria dos preceitos da
igreja, mas no fundo, o maior papel delas é com a nutrição de
mulher-para-mulher.
Antigamente
o círculo das mães seguras (avós, bisavós, sogras, tias) era como um portal
para aquela jovem mãe-criança, que tinha no vínculo familiar o maior dos
aprendizados.
E
o que sobra hoje, são os chás de bebês, com papinhos, abusos disfarçados de
brincadeiras, piadas sobre parto, os aplicativos, as redes sociais substituindo
os velhos e sábios conselhos das mães sábias, as grandes senhoras naturais que
levam na intuição o traquejo da vida feminina.
Assim,
ultimamente, na geração Z em diante, nas palavras da psicanalista Clarissa
Pinkoka Éstes, “a jovem mãe choca, dá à
luz e tenta cuidar seus filhos absolutamente só “.
Não
é à toa que cresce dia após dia a depressão pós-parto, aumentando cada vez mais
a necessidade de cuidado na perinatalidade. Uma pesquisa realizada na
Universidade de Michigan, EUA, que contou com 68 puérperas, resultou na triagem
de 38,2% positivo para depressão pós-parto, 28,1% para depressão maior. A mesma
pesquisa foi realizada no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, e
revelou que 38,8%, das jovens mães apresentaram depressão.
Mães
jovens, segurando seus rebentos em uma das mãos e na outra a ponta da caneta
para assinar um divórcio.
Meninas
mulheres, desiludidas, atordoadas, com o coração partido e cheirando leite, sem
qualquer vivência conjugal. Traumas pessoais, sociais afetando mulheres e
certificando toda uma geração futura. As expectativas, os sonhos, o príncipe
encantado se aniquilam em um borrão da mulher domesticada, caem como ilusões de
uma infância perdida cedo demais.
Os
dados de ambas as pesquisas mostram velhos conhecidos da clínica da
perinatalidade, que são: afragilidade da rede de apoio, as condições ansiógenas
e a violência. São fatores de risco à saúde mental materna. Portanto, para
promover a saúde mental na perinatalidade é preciso ampliar e fortalecer a rede
de apoio em nível material e emocional, e localizar as fontes/origem da
ansiedade e da violência no âmbito individual e coletivo.
O
pai não adianta se queixar, como diria no conto: “o patinho feio”- “Aquele
safado, não veio me visitar uma vez sequer. ”
Assim,
em meio a toda essa turbulência, umas conseguiram ser mães, outras são crianças
que fingem ser mães, que lutam sem os pais, que se tornam mães solo; outras sentem
repulsa, perdem o fluxo de amor e condenam seu futuro amoroso, pois tiveram
seus sonhos encurtados, desiludidas, estão sozinhas.
Algumas
mães que não tiveram acolhimento, torturam seus filhos, causam traumas
cimentados que no futuro assombram as gerações.
Sim,
a mãe frágil, sem recursos psíquicos é um verdadeiro cisne criado no meio dos
patos, onde não descobriu sua identidade, está perdida, afastada de seu Self
criativo, vivendo como espectro.
Nesse
local, vejo mãe e filho crescerem de mãos dadas, emaranhadas, isolados da
própria natureza e divindade.
Não
se preocupe, esse texto não é um final triste e trágico, ou talvez uma sentença
de morte.
Existe
remédio para tudo. O Mestre Jesus nos mostra o caminho há mais de dois mil anos
atrás. Confia na sua natureza e segue o aforismo grego antigo: conhece-te a ti
mesmo.
Juliane Silvestri Beltrame
Especialista em Direito das famílias e escritora.