A perigosa tendência dos jogos de azar online, conhecida como
“jogo do tigre,” fez duas vítimas em menos de um mês no estado do Maranhão.
Rafael Mendes, de 17 anos, é a mais recente. Ele recorreu ao
suicídio, na cidade de Formosa da Serra Negra, após perder uma herança de R$ 50
mil. Influenciado por intensas publicidades do jogo nas redes sociais, ele
apostou todo o seu dinheiro e acabou perdendo tudo.
Esses jogos criam a ilusão de enriquecimento fácil e rápido,
incentivando jovens a arriscarem grandes quantias de dinheiro. Recentemente o
Fantástico revelou uma rede criminosa de influenciadores do Jogo do Tigre, no
Paraná, sendo que uma das vítimas disse que perdeu todo o salário do mês em
menos de 15 minutos.
Segundo o Datafolha, 30% dos jovens de
16 a 24 anos e 25% das pessoas entre 25 e 34 anos relataram já ter feito alguma
aposta pela Internet, seja poker. Outro dado alarmante é que 15% de toda a
população diz ter apostado pelo menos uma vez. A média de gastos do brasileiro com
esse tipo de atividade corresponde a 20% do salário mínimo.
A participação de crianças e adolescentes em jogos de
apostas online pode ser extremamente prejudicial. A prática apresenta vários
perigos, entre eles vício, problemas financeiros, impacto no desempenho
escolar, estímulo a comportamento criminoso, riscos à saúde mental e exposição
a conteúdo inadequado.
O jogo patológico está listado como um "comportamento
fora do normal e falha no controlo de impulsos" no ICD-10 e definido no
glossário internacional de doenças como: "Este comportamento fora do
normal consiste de jogo frequente e repetido, que controla a vida do
paciente e leva a uma disfunção e afastamento social, ocupacional e de valores
da família e dos seus compromissos."
O desenvolvimento do vício do jogo é um processo complexo
influenciado por diversos fatores. Os mais importantes são os que se seguem:
uma desordem narcísica, problemas nos relacionamentos, falta de sentimento
pelas pessoas e pelo convívio social, sentimento de vazio interior, como um
nada, medo de crescer, vitimização.
Os ganhos iniciais fortalecem o ego e parecem confirmar a
ideia de que são realmente especiais, costuma acontecer após uma "big win",
um lucro rápido e aparentemente fácil que inicia o descambar da mente para um
mundo de fantasia. Esses indivíduosaparentemente sofreram traumas muito grandes
na infância como: separação de pais, abusos infantis, perdas de entes queridos.
A
incapacidade de regular a excitação interna e nervosismo resultam na peculiar
inquietude de um viciado em jogo. A motivação de jogar no início tem como
motivo o sucesso e lucros, a redução do tédio e a gestão de sentimentos
negativos como exemplo: uma separação, descanso ao final de um dia de trabalho,
stress profissional. Estes indivíduos acabam por cair num ciclo vicioso,
acabando por prejudicar todas as áreas da sua vida.
Estes jogadores entram num estado de prazer e excitação enquanto jogam e
tentam arranjar explicações para o seu jogo descontrolado. Comportamentos
supersticiosos e raciocínios "mágicos" podem ocorrer.
Progressivamente entram num mundo de fantasia marcados pela busca de poder e de
lucros. Eles alienam-se do seu ambiente privado e tornam-se solitários. Começam
a surgir padrões de pensamento distorcidos. O jogo torna-se a principal atividade
das suas vidas. Este desenvolvimento leva ao declínio físico, mental e social.
A evolução desta patologia demonstra, por exemplo, que as pessoas acabam
por tentar compensar as suas perdas, aumentando os seus buy-ins, perseguindo o
dinheiro perdido. No poker, este fenómeno é conhecido como entrar em tilt.
Existe uma explicação neurológica. O sistema de recompensa do
cérebro é sobrecarregado o que leva a uma contrarregulação do mesmo. De maneira
a contrariar esta agitação anormal e danosa, o cérebro cria uma resistência a
estes estímulos. Inicia-se uma adaptação neurológica. Com o objetivo de
satisfazer a sua necessidade, os buy-ins e o volume de jogo têm de ser
aumentados. Além disso, o expoente máximo desta patologia acaba por ser o
showdown.
Finalmente, estes jogadores podem arruinar a sua vida
financeira, perder as suas famílias e os seus trabalhos. Os psiquiatras
defendem que estes acabam por ser os motivos imediatos de muitas tentativas de
suicídio destes jogadores. Outros jogadores poderão mesmo tornar-se criminosos.
As consequências do jogo continuado e ininterrupto pode também ter
consequências físicas como úlceras nervosas, enxaquecas e ataques cardíacos.
A voz da resistência interna sempre irá arrumar aliados
exteriores. Na realidade ela joga para ganhar, ela não quer que você reaja.
Tudo que é agradável a curto prazo é ferramenta da resistência: sexo, drogas,
comida em excesso, álcool, jogos, vícios. Tudo por medo de encontrar a si
próprio.
A
Mãe de Rafael Mendes já tinha ouvido essas histórias. O filho bem-criado, um
menino de berço, mimado, querido por todos, que faz amizades erradas, passa a
mentir, a manipular e a vender todas as coisas em casa pra sustentar o vício,
um vício que ele não aprendeu em casa, mas trouxe pra casa como um vírus
silencioso, que de repente está engolindo e matando e destruindo tudo ao redor.
Ela conhecia essas histórias, mas eram sempre histórias de outras mães e outros
filhos. Agora era o Filho dela.
Juliane Silvestri Beltrame
Especialista em Direito das Famílias.