Eis
uma questão difícil de se resolver. Quem nunca pensou em se divorciar, que
atire a primeira pedra. Tenho certeza que essa dúvida já passou pela cabeça de
grande parte dos casais, pelo menos uma vez, embora não se confesse ou admita
isso.
A decisão por um divórcio, por mais difícil
que possa parecer, raríssimas vezes é feita de uma hora para outra. Pelo menos
por uma das partes, essa ideia é laborada internamente durante muito tempo, às
vezes anos, até que esteja pronta para ser externada ou verbalizada.
Separar
é um ato adoidado que muitas vezes estamos separados e não sabemos. Muitos
casais vivem dentro de um lar e mal se falam, coabitando como se fosse uma
república, só para divisão das despesas. É tão sofrido que muitos acabam
fazendo da separação uma atitude impensada e o fazem para se ver livre da dor e
da angústia que provoca, perdendo tempo em gastar energias nas possíveis alternativas
de uma reconstrução da família, ao invés da separação.
A
reconexão familiar é pouco conhecida, pois no momento da dor as pessoas só
enxergam o caminho do término,pelo sofrimento sentido, colocando no outro a
culpa pelo afastamento. Olhar para si, se autoconhecer, buscar ajuda
profissional, recuperar a confiança, o amor é um caminho pouco seguido porque
demanda a busca de si, o desapego e o desnudar-se do orgulho e do ego, os
grandes enigmas do ser humano.
Nós,
familiaristas, não temos o direito, muito menos o poder de mudar a decisão das
pessoas. Não podemos ser agentes separadores e nem induzir sobre qual a decisão
será mais adequada para eles. É uma decisão íntima e um ato de responsabilidade
dos sujeitos envolvidos. Mas, podemos muitas vezes dar um norte, trazer um
conhecimento que pode transformar a vida de um casal e pode contribuir de forma
humana na continuação da família.
São
20 anos trabalhando com famílias nos momentos mais difíceis, e o caminho mais
acertado é o olhar humano para cada processo, cada sorriso devolvido e cada
casal que reaproxima ou dissolve de forma amorosa, perpetrando a continuação e
o desenvolvimento dos filhos, contribuindo para a pacificação social, sendo um
agente da paz.
Muitos
casais não têm a capacidade de resolver, por si mesmos, esses conflitos
internos e o externalizam, relatandoo medo e a confusão ao advogado. Outros
utilizam o processo judicial como forma de vingança, manipulação e escape.
Levam para o litigio judicial os restos do amor, transformados em histórias de
degradação do outro, o que certamente não é a solução para uma separação. Ao
contrário, esses processos em geral, muitas vezes, são exatamente para não
resolver e para não separar, já que continuam a relação através da Justiça.
Você
já ouviu a frase: O ódio une mais do que o amor.
O
divórcio não é fácil e nem simples. São muitos os desafios para se manter um
casamento duradouro. Existem muitas dores, traumas de infância que os cônjuges
derramam em cima um do outro na esperança de resolver a dor do passado, razões
inconscientes que muitas vezes encobrem os seus verdadeiros motivos. Muitas
vezes são recalques, guardados por anos e anos, falta de pai e mãe, quebra de
fluxos de amor, traições de namorados anteriores, abandono afetivo, criança
carente de amor, criança que viu os pais separando, sofrendo, praticando
violência doméstica, vítimas de abusos físicos e psicológicos, e que em algum
momento vem à tona.
Lidar
com o outro é uma verdadeira escola. O casamento é o lugar certo para cada
cônjuge recuperar e evoluir. Quando o ser humano compreender que é na família
que evoluímos, curamos, melhoramos, aprendemos, deixamos a continuidade da
vida, entenderemos que o que chega é o certo e o que vai é a oportunidade de
melhorar.
Só
quando deixarmos o nosso orgulho e egoísmo de lado, vamos aprender nos curar e
parar de ver o outro como uma caixa de benefícios com passe livre de prazer, de
felicidade, de resolução dos problemas, ou talvez, a famigerada“tampa da
panela” e a bengala das nossas dores e desventuras, vamos poder acessar o amor
que completa, que serve e que evolui.
Juliane Silvestri Beltrame
Advogada familiarista e escritora.