A seta mostra o ligamento cruzado anterior do joelho visto de frente
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<p>O Joelho é uma articulação de exigências extremas
na prática esportiva e deve associar dois paradoxos: ser estável o
suficiente para suportar peso e ter liberdade de movimento absoluta para
poder transmitir a energia cinética do movimento. Por este motivo, é
uma articulação extremamente suscetível ao trauma e, até mesmo
movimentos aparentemente inofensivos podem lesar suas estruturas e
comprometer a performance do esportista.<br>
As taxas de incidência de lesões ao joelho vêm crescendo anualmente.
Isto se deve, provavelmente à maior participação nos esportes de todos
as faixas etárias. Nos EUA, estima-se que hajam, anualmente, 90.000
lesões agudas do ligamento cruzado anterior.</p>
<div id="attachment_82" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-medium wp-image-82" title="" src="http://www.adrianoleonardi.com.br/wp-content/uploads/2013/01/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior001-300x211.png" alt="" height="211" width="300"><p class="wp-caption-text">Exemplo
clássico do entorse do joelho durante partida de futebol. O pé do
jogador está preso ao do adversário e o joelho flexionado está sendo
submetido a uma rotação interna forçada da tíbia sobre o fêmur.</p></div>
<p>O entorse é, disparadamente o movimento que mais lesa estruturas
intrínsecas do joelho. No futebol, esporte muito popular no Brasil, o
trauma ocorre com o pé fixo ao solo, ou preso à perna do adversário,
ocorrendo rotação anormal interna ou externa do fêmur em relação à
tíbia. Os ligamentos e meniscos, neste momento, submetidos as estresses
tênseis acima do suportado, desencadeiam um arco reflexo medular com
contratura dos músculos anterior (quadríceps)e posterior (isquiotibiais)
da coxa, na tentativa de proteger a articulação. Quando a energia do
trauma é superior a este mecanismo de defesa, há deformação e ruptura
das estruturas envolvidas. O resultado são as distensões musculares,
estiramentos e rupturas ligamentares e meniscais. Entorses com o
indivíduo agachado e que rotaciona o joelho de maneira anormal também
podem lesar e, estatisticamente, estão mais ligados a lesões dos
meniscos. Ocorre, por exemplo, quando um escalador move o joelho de
maneira anormal e súbita para subir uma rocha.<br>
Outros mecanismo de lesão é a desaceleração súbita, classicamente,
quando o indivíduo chuta o ar ao invés da bola,ou o adversário, no caso
de lutas. Esta é a forma mais comum de lesão isolada ao ligamento
cruzado anterior.<br>
Via de regra, havendo lesão, há dor e contratura muscular e, muitas
vezes, ela é maior em rupturas parciais de ligamentos, pois há maior
ativação de receptores de dor presente dentro das estruturas envolvidas.
Quando há inchaço instantâneo, há em 80 a 90% dos casos, ruptura do
ligamento cruzado anterior, associada ou não a lesão de outras
estruturas e, este se deve ao sangramento dentro da articulação,
denominado, na linguagem médica de hemartrose.</p>
<p><strong>Um pouco de anatomia</strong><br>
Mas, afinal, o que vêm a ser o ligamento cruzado anterior, meniscos, cartilagem?<br>
Para que servem?</p>
<div id="attachment_83" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><img class="size-medium wp-image-83" title="" src="http://www.adrianoleonardi.com.br/wp-content/uploads/2013/01/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior002-300x203.png" alt="" height="203" width="300"><br><br><p class="wp-caption-text">A seta mostra o ligamento cruzado anterior do joelho visto de frente</p></div>
<p>Observando-se um esquema anatômico simples do joelho, nota-se uma
estrutura que parte detrás de uma proeminência óssea do fêmur, chamada
de condilo femoral e se insere na parte anterior da tíbia, entre as
fixações dos meniscos. É o ligamento cruzado anterior, estrutura
responsável por “segurar” a tíbia e evitar o movimento de translação
dela sob o fêmur e por emitir informações sensoriais ao centro do
movimento ao cérebro para que a pessoa tenha a sensação do movimento e
tenha melhor coordenação motora. A isto se chama propriocepção.<br>
Então,o ligamento cruzado anterior, além de simples estabilizador
mecânico também é responsável pela coordenação motora? Sim, e o
restabelecimento da mesma é muito importante no tratamento de suas
lesões.A cartilagem é o “revestimento” em torno da extremidade do osso.
Serve para a distribuição mais uniforme do peso e tem altíssima
capacidade de deformação. É, portanto, estrutura de suma importância na
dissipação de energia.<br>
Os meniscos são uma especie de “amortecedores”, localizados entre o
fêmur e a tíbia e são divididos em 3 partes (cornos): anterior, médio e
posterior. São também responsáveis por estabilizar o joelho, aumentam a
congruência entre seus ossos, absorvem o impacto e também auxiliam na
propriocepção.</p>
<div id="attachment_84" class="wp-caption alignright" style="width: 300px"><img class="size-medium wp-image-84" title="" src="http://www.adrianoleonardi.com.br/wp-content/uploads/2013/01/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior003-300x195.png" alt="" height="195" width="300"><p class="wp-caption-text">O planalto da tíbia visto de cima e os meniscos em formato de “c”.</p></div>
<p>Quando um joelho sofreu lesão ao ligamento cruzado anterior podendo
ela ter sido total (ruptura) ou parcial (alongamento), denominamos em
linguagem médica de “joelho LCA-deficiente”, ou seja, será uma
articulação que experimentará instabilidade pela ausência ou
insuficiência do ligamento cruzado anterior e passará por alterações do
equilíbrio neuro-motor (proprioceptivas) na tentativa de restabelecer o
equilíbrio neuro-muscular comprometido na lesão. Em outras palavras:
tanto o joelho, como outras articulações adjacentes terão que funcionar
de maneira diferente a níveis pré-lesionais a fim de se evitar sintomas.
Por isso, é comum encontrar pessoas que alteraram o seu padrão de
marcha e, mesmo após uma cirurgia de reconstrução de ligamento cruzado
anterior, continuam mancando, ou pisando de maneira errônea,
desencadeando outros sintomas, como dores nos pés, nos quadris e nas
costas.</p>
<p>A principal queixa de quem possui um “joelho LCA-deficiente” é o
falseio, ou sensação de que o “joelho saiu e voltou ao lugar”, que pode
ocorrer tanto em atividades da vida diária, como descer escadas, subir
em um ônibus, correr e trotar, quanto em atividades esportivas
recreativas ou profissionais. A dor, quando presente, está ligada a
lesão de outros ligamentos, como por exemplo o ligamento colateral
medial, meniscos e lesões na cartilagem articular, discutidos em outro
tópico.<br>
Estudos recentes de biomecânica indicam que esta sensação de falseio se
dá em até 30 graus de flexão do joelho, justamente a angulação usada no
momento do drible e da mudança brusca de direção em esportes como o
futebol, vôlei e tênis. Um “joelho LCA-deficiente” é, portanto,
incompatível para estes tipos de atividades.<br>
Mas, uma vez que haja insuficiência do ligamento cruzado anterior, qual a chance de se desenvolver o falseio no joelho?<br>
Noyes, um respeitado autor norte-americano desenvolveu a regra dos
terços: Após a lesão ao ligamento cruzado anterior, 1/3 das pessoas
terão instabilidade imediata, 1/3 terão de maneira tardia e somente 1/3
não desenvolverá instabilidade.<br>
De uma maneira geral, desenvolvendo-se ou não falseio, o “joelho
LCA-deficiente” terá progressivamente melhoria do inchaço, e apresentará
invariavelmente algum grau de atrofia da musculatura da coxa. Isto se
deve, tanto ao desuso, quanto à perda do arco reflexo muscular do
ligamento cruzado anterior, também chamado de reflexo de Leriche. Esta
atrofia, que é muito variável entre os indivíduos será o grande desafio
durante a reabilitação e o que, muitas vezes faz com que a recuperação e
o retorno ao esporte seja mais lento que o programado após uma cirurgia
de reconstrução de ligamento cruzado anterior.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-85" title="" src="http://www.adrianoleonardi.com.br/wp-content/uploads/2013/01/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior004-218x300.png" alt="" height="300" width="218">Pelo
fato do LCA não cicatrizar, é de comum acordo entre a maioria dos
autores no mundo de que tanto uma lesão total, quanto parcial, em
pacientes ativos e que tenham queixas de falseio, que o indivíduo deve
ser submetido a cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior
para que possa restabelecer a estabilidade e função.</p>
<p class="post-signature">— Dr. Adriano Leonardi <br></p>
<p>Medico ortopedista especialista em cirurgia do joelho e traumatologia do esporte.
Mestre em ortopedia e traumatologia pela Santa Casa de São Paulo </p> </div>
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